Mãe Malabarista

Já dizia meu avô: “se ao final do dia você estiver cansado, depois de um dia todo com as crianças, você fez um bom trabalho”. Não sei se meu avô se referia ao cansaço físico apenas, já que éramos netos muito aventureiros, ou à somatória do físico com mental de orientar e ensinar. De qualquer forma, hoje consigo entender o que ele queria dizer. E soma-se à empreitada do cuidar, ajudar no desenvolvimento, orientar, brincar, as tarefas da ordem prática; as tarefas objetivas referentes à rotina. Uma lista que parece não ter fim: leva aqui, traz ali; organiza almoço, jantar, lanche, lancheira, feira, supermercado, uniforme, material escolar, farmácia, dentista, pediatra, presente do amigo que fará aniversário….

Ufa!

Sinto sempre que algo ficará pendente.

Na tentativa de conseguir fazer tudo, faço notas para não esquecer do que precisa ser feito. O hábito me acompanha desde a residência médica, quando no plantão fazíamos o chamado “bucho” do que deveria ser feito. Ao lado de cada tarefa fazíamos uma bolinha: se pintada indicava que a tarefa estava feita. Sigo fazendo meu bucho de casa – ora no papel, ora mental. Para mim, que fiz terapia intensiva, terminar o tal “bucho” sempre foi uma questão de “quando” e nunca de “se”. Por isso, terminar o dia com as bolinhas da lista de casa em branco é o “ó”. É a “bolinha” do esporte ontem ficou em branco, as vezes é a de algum compromisso pessoal, outras é da feira orgânica que eu queria muito ter ido. As vezes é um artigo que não consegui terminar e dormi, lendo, antes de chegar à conclusão ou o filme que jurei que ia assistir mas dorminantes mesmo de ligar a televisão.

É a vida… afinal o dia tem apenas 24 horas e fazemos o melhor que podemos. A maternidade me ensinou a realmente priorizar os “tem quês” que não são prioridade, dos que são. Ensinou que tudo bem deixar alguns itens da lista “para depois” e que principalmente não há necessidade de dar conta de cada item da lista sozinha. Parece óbvio, mas pedir ajuda é necessário e saudável. O que requer outro aprendizado: ao nos desprendermos da necessidade de fazer tudo, também nos desprendemos do “mindset” de ter controle de tudo. As coisas serão feitas de outra maneira, tão boas quanto o nosso “jeito” de realizá-las.

Isso sem contar nas constantes reflexões a respeito de uma lista maior ainda: a das prioridades da vida, com os elementos maiores e particulares de cada uma: família, amigos, lazer… entre outros elementos. Quanto a essa lista, comecei o ano revendo os muitos elementos dela e me despi de alguns itens que hoje não me cabem mais. Processo complexo, necessário e libertador.

Termino esse post com o trecho do livro “Mãe em construção” de Isabel Coutinho. Considero esse texto maravilhoso e perfeito para muitas reflexões:

“(…) Depois que me tornei mãe, uma sensação me acompanha constantemente: a de que, em determinado momento, alguma peteca vai cair. que vou esquecer de algo muito importante, que não vou conseguir cumprir todos os horários e compromissos. Isso me angustia e me faz pensar se eu realmente vou dar conta de seguir a vida sendo mãe sem deixar de ser eu mesma. Durante toda a vida o desafio que temos é equilibrar as diversas petecas que aparecem (…) de forma que mais combine com o que desejamos, com aquilo que nos faz felizes. Sejam essas petecas do trabalho, da família, do amor, do lazer, da saúde, da beleza. Ou qualquer outra. Em alguns momentos é comum surgirem questionamentos: estamos com as petecas certas nas mãos? Será que algumas estão voando mais alto que deveriam? Será que estamos deixando petecas importantes fora do jogo? Quais petecas devem cair e qual devemos continuar a jogar? Essa é uma tarefa comum, que faz parte do grande desafio que é viver. Todos somos malabaristas diante da complexidade da vida. Pergunto-me então por que, depois que me tornei mãe, a sensação de petecas caindo é tão forte e presente. Antes de ser mãe eu ja exercia esse desafio de equilibrar carreira, relacionamentos, amizades, lazer, saúde etc. , etc! Mas por que agora a sensação de que algo vai escapar é tão mais intensa? (…) Os filhos não são uma peteca qualquer: eles são uma peteca definitiva, muito difícil de ser deixada de lado (…). A partir do momento em que alguém tem um filho, todas as outras petecas vão ter que se arranjar em função desse acontecimento. E dificilmente o equilíbrio geral não será afetado. Quando nasce um filho nasce também um novo malabarista – a mãe – que terá que reaprender a equilibrar suas bolas, petecas ou clavas como se fosse uma iniciante(…). E reconhecer que precisamos de tempo para reaprender o difícil jogo de priorizar. E que, nesse meio tempo, algumas petecas vão cair para que outras consigam continuar no ar, se equilibrando, na bonita dança que é o viver…”

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